Quem nunca teve um amor platônico que atire a primeira pedra. Você aí, vasculhe suas memórias. Certamente teve um (a) professor (a), vizinho (a). Algum ator ou atriz famosos, o irmão mais velho da sua melhor amiga, o entregador de pizza... Imaginou em menos de um minuto que era correspondido (a), namoravam, casavam, vinham os filhos, envelheciam e partilhavam a mesma cova na morte. Não minta, sei que passou por isso. Comigo não foi diferente.
Meu sonho adolescente cantava numa banda de rock alternativo não muito conhecida. Tinha treze anos quando ouvi sua voz pela primeira vez. À procura da pessoa dona de voz tão especial, a vi na televisão protestando contra George W. Bush. Fiquei, como é mesmo que dizem? ah, sem chão. Cabelos compridos quase na altura dos ombros, olhos castanhos, pele levemente amorenada, corpo perfeito, com um sorriso que me deixou encantada. Logo descobri que o cara se chamava Brandon, e sua banda, Incubus. Daquele momento em diante passei a viver somente de fantasia.
Era uma recém chegada no mundo da adolescência, porém já me sentia quatorze anos mais velha - nossa diferença de idade -. Comecei a me vestir de um jeito mais adulto, tentei aprender a tocar violão - um desastre completo, o que não me impediu de persistir tentando -. Passei a praticar inglês sozinha de uma maneira obcessiva, ouvir PJ Harvey (não me arrependo), investi nos meus desenhos... até meus hábitos de leitura tentei mudar. Tudo para quando finalmente conhecesse o carinha dos meus sonhos e ele visse que ali se encontrava sua alma gêmea. Já tinha imaginado como nosso primeiro encontro seria. Moraríamos no mesmo prédio, e viveríamos nos esbarrando pelos corredores. Aí um dia deixaria cair alguns trabalhos meus, lindos desenhos com traços semelhantes aos de suas obras de arte. Ele ficaria interessado nas minhas criações, e repararia no quanto era bela e meu sorriso radiante. Então me convidaria para ir em sua casa para olhar alguns de seus trabalhos (como se já não tivesse visto mil vezes!), e eu lógicamente aceitaria, fingindo timidez.
Esse seria definitivamente o começo de tudo. Logo viria o namoro, a compreensão e apoio nas viagens em turnê da banda. Nossos laços seriam tão firmes que muitas vezes o acompanharia nessas viagens por não suportarmos ficar longe um do outro. O amor cresceria tanto que logo estaríamos casados, comprando uma casa afastada da cidade, com um lindo pomar e um balanço. Faria maravilhosas refeições para nós e depois do jantar deitaríamos na grama para ver as estrelas. Ele cantaria Stellar em meu ouvido e abraçados, dormiríamos sob o luar nas noites quentes. Tomaríamos banhos de chuva nos fins de tarde tempestuosos do verão. E ao sentir-me enjoada, com muita alegria saberíamos que nosso primeiro filho estava a caminho. Teríamos nosso ateliê e uma livraria, negócio pequeno, apenas por passatempo. Assim via minha vida aos treze anos. Pura fantasia.
Passado algum tempo fui amadurecendo em muita coisa. Vi o ridículo, a infantilidade de minhas idéias. Porém não abandonei o pensamento de que o conheceria um dia. Apenas caí na real de que era o máximo que conseguiria. Isso tudo no terreno das hipóteses, sem devaneios adolescentes. Meu coração endureceu desde então e não quis saber de ninguém mais. Não era mais a guria boba, mais uma a derreter-se pelo belo Brandon Boyd. Namorei apenas uma vez, fazendo as vontades de todos, menos as minhas. Relacionamento desastroso, que só me fez querer mais distância de compromisso com alguém. Mesmo engajada em trabalhos sociais, cursando pré-vestibular, sempre pensava nele. No seu sorriso e no jeito que mordia o lábio... droga. Quando isso acontecia sempre ficava mais amarga. Sentia-me uma estúpida. Passava a vida mergulhada em meus livros, assim nem sentia o tempo passar.
E então meu sonho adolescente mudou. Por outra pessoa, muito parecido e muito diferente na mesma medida que meu primeiro amor. Surpreendente para uma mulher de dezoito anos. Sofri muito mais por isso, entendi de verdade o que é gostar de alguém. Porém esse sofrimento foi breve. Descobri que era correspondida, muito além do que poderia sonhar. O amor deixou de ser platônico para tornar-se real, e a beleza disso é impossível de explicar.
É muito bom sonhar, imaginar coisas impossíveis. Mas entrei na realidade mais linda do mundo. Com algumas recaídas nos últimos anos, finalmente entendi que nunca mais quero perder isso. Ter alguém de verdade que me ama pelo que sou. Então Brandon, foi bom enquanto durou. Você agora é apenas o vocalista da minha banda favorita. Finalmente posso dizer adeus. E sabe o que escuto nesse momento? A Kiss To Send Us Off.